Depois do mediatismo do ano passado, muitos vaticinaram que os blogs seriam um caso de sucesso passageiro, algo semelhante aos sucessos musicais de Verão, dos quais, quase ninguém se lembra no Natal. A verdade é que a blogosfera continua a estar na moda. Enquanto o "Expresso" anuncia a contratação de dois dos mais famosos bloggers portugueses: Daniel Oliveira do Barnabé e Carla Quevedo d' A Bomba Inteligente, destacando precisamente o seu papel nestes blogs; eis que continuam a surgir livros que compilam textos originalmente publicados na blogosfera, nos últimos dias chegou aos escaparates uma compilação do inevitável Barnabé e, com menor projecção mediática, é publicada uma selecção de contos d' Os dias de um Homem Banal, um blog cuja qualidade das histórias justificam a publicação em livro.
Aqui ficam duas sugestões para juntar a blogosfera aos livros, quando forem a uma livraria não deixem de procurar estes livros.
Não é influência do novo secretário-geral do PS, mas de vez em quando é bom recordar a sabedoria de quem já viveu há um par de séculos, neste caso uma senhora que, além de grande escritora, foi também notável pintora e ao que consta apaixonada por música: O amor passa, a amizade volta, mesmo depois de ter adormecido um certo tempo.
George Sand
No sábado dia 22 de Novembro de 2003, assinalaram-se os 40 anos da morte de John Kennedy. A comunicação social assinalou devidamente a efeméride, no entanto não vi referências aos 40 anos da morte de Aldous Huxley, que faleceu no mesmo dia que o presidente John Kennedy, e que é autor do melhor livro que li: "Brave New World" ou "Admirável Mundo Novo" em português. Foi também a um livro de Aldous Huxley: "The Doors of Perception", que Jim Morrisson foi buscar a inspiração para o nome daquela que viria a ser a grande banda do final dos anos 60.
São factos que justificam a referência, e já que poucos se lembraram dele no dia em que se assinalaram os 40 anos da sua morte, aqui fica uma singela homenagem a um dos grandes escritores ingleses do século passado.
"A diferença entre um capricho e uma paixão eterna é que o capricho dura um pouco mais"
O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde
O amor nas palavras do grande Fernado Pessoa:
"Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos."
Livro do Desassossego, Fernado Pessoa
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces,
estendendo-me os braços, e seguros
de que seria bom que eu os ouvisse
quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
e cruzo os braços,
e nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
-Que eu vivo com o mesmo sem vontade
com que rasguei o ventre a minha mãe.
Não, não vou por aí! Só vou por onde
me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
redomoinhar aos ventos,
como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
a ir por aí...
Se vim ao mundo,
foi só para desflorar florestas virgens,
e desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
e vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! tendes estradas,
tendes jardins, tendes canteiros,
tendes pátrias, tendes tectos.
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca princípio nem acabo,
nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um atomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
-Sei que não vou por aí!
Cântico Negro, José Régio
P.S. Este poema, além da sua beleza, traz-me tantas recordações...
De silabas de letras de fonemas
se faz a escrita. Não se faz um verso.
Tem de correr no corpo dos poemas
o sangue das artérias do universo.
Cada palavra há-de ser um grito.
Um murmurio um gemido uma erecção
que transporte do humano ao infinito
a dor o fogo a flor a vibração.
A poesia é de mel ou de cicuta?
Quando um poeta se interroga e escuta
ouve ternura luta espanto ou espasmo?
Ouve como quiser seja o que for
fazer poemas é escrever amor
a poesia o que tem de ser é orgasmo.
Poesia-Orgasmo, José Carlos Ary dos Santos
Enquanto esperava que se iniciasse o meu torneio de xadrez, tive a oportunidade de visitar a exposição de homenagem ao poeta José Carlos Ary dos Santos, e esta foi, sem dúvida, uma das surpresas positivas da minha visita à Festa do Avante. A exposição estava muito bem organizada, enquanto numa televisão iam passando testemunhos sobre o poeta, alternando com imagens gravadas do próprio, declamando a sua poesia da forma que só ele sabia fazer, era possível ainda, ler os seus poemas, alguns na folha original em que tinham sido manuscritos.,
Foi um momento de grande descoberta, percebi que a poesia do Ary dos Santos é bem mais do que as músicas que eu sabia ser ele o autor: Putos do Carlos do Carmo, Desfolhada da Simone, Tourada do Fernando Tordo e poucas mais.
Não adquiri nenhum dos seus livros, mas vou fazê-lo brevemente.
Há pouco tempo li o livro “1984”, de George Orwell, um daqueles livros que sempre tive curiosidade em ler, e cuja leitura fui adiando, até porque tinha a certeza de que ia acabar por lê-lo.
Antes de mais, devo aconselhá-lo vivamente a todos os que ainda não tiveram a oportunidade de o ler. É um excelente livro, que retrata uma sociedade em que as liberdades individuais foram totalmente suprimidas, supostamente para garantir o bem-estar de todos, mas na verdade, com o único intuito de perpetuar o poder da classe dominante, personificada na figura omnipresente do “Grande Irmão”.
É um aviso para o que poderá ser o futuro, e em muitos aspectos para o que já é o presente, com a perda da privacidade, e os avanços tecnológicos que permitem controlar as acções dos indivíduos. Lembra-nos que quando abdicamos da liberdade para obter segurança, perdemos a liberdade e arriscamos a não obter mais segurança em troca.
Tal como “O Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, é um retrato pessimista do que o futuro e o progresso tecnológico nos reservam, transformando os homens em autênticas máquinas, sem qualquer individualidade, dado que esta é uma ameaça para quem detém o poder.
Já agora, há mais dois livros cuja temática é semelhante, e que embora ainda não tenha lido, tentarei ler nos próximos tempos. Falo de “Nós”, de Eugene Zamyatin e de “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, este último a ser editado na colecção “Mil Folhas” do Público, no final de Agosto, e que poderá ser adquirido pelo simpático preço de € 4,20 (é o que eu vou fazer). Já agora, lembro-me que quando vi o filme baseado neste “Fahrenheit 451” – devia ter cerca de dez anos – adorei o filme, e está num lote dos que pretendo rever, onde incluo também o “Brazil”, realizado pelo Terry Gilliam, que vi há alguns anos atrás por influência do meu irmão e cuja inspiração é claramente o “1984”.
Espero que estes livros e estes filmes, vos ajudem a questionar o mundo onde vivemos e o rumo que ele segue.
No ano passado, a propósito das alterações registadas na RTP, muito se discutiu o serviço público de televisão. Tenho uma opinião sobre o que deveria ser este serviço público na RTP, aquele que os portugueses terão de pagar, seja directamente através de uma taxa, seja indirectamente através de transferências do Orçamento de Estado.
Mas não é sobre o serviço público de televisão que escrevo hoje, é sobre outro, prestado por dois jornais diários portugueses, e que tem a grande vantagem de não trazer custos para o Orçamento de Estado. Falo das iniciativas que o “Público” e o “Diário de Notícias” promovem, de permitir a aquisição de livros a preços bastante acessíveis juntamente com o jornal do dia. É claro que poderá haver quem diga, na tentativa de retirar o mérito destes dois periódicos, que o objectivo foi o de aumentar as vendas, fidelizar leitores e até que os livros não estão a ser vendidos abaixo de preço de custo, pelo que o objectivo foi o lucro. Provavelmente estarão certos, mas quem disse que o serviço público implica necessariamente perder dinheiro?
Estas iniciativas permitiram, sem dúvida, aos referidos jornais aumentar as vendas, principalmente nos dias de distribuição dos livros, mas tem também contribuído para o aumento do número de leitores em Portugal. Como sei isto? Sou utilizador frequente de transportes públicos, e tenho reparado, que o número de pessoas que durante as viagens lêem livros tem aumentado significativamente, e muitas vezes os livros em causa são os das colecções referidas, em especial a “Mil Folhas” do Público, que tem o grande mérito de aliar uma edição em “capa dura” de qualidade razoável a uma excelente selecção de livros, que percorre os grandes autores do século XX. Não tenho dúvidas em afirmar que esta colecção fez mais pelos hábitos de leitura dos portugueses, do que as campanhas promovidas pelo Ministério da Cultura.
A boa notícia, é que depois de mais de 4.000.000 livros vendidos (não é gralha, são mesmo quatro milhões), o Público decidiu fazer uma 3ª série da colecção “Mil Folhas”, e vai permitir que os portugueses adquiram mais 30 excelentes obras da literatura contemporânea a preços bastante acessíveis. Por mim, já estou a pensar onde vou arranjar estantes para mais estes livros…