julho 10, 2003

Os meus tops

Não sei se viram o filme Alta Fidelidade. Quem viu, lembra-se que o personagem interpretado pelo John Cusack, tinha por hábito fazer o top-5 das mais diversas coisas, desde músicas a separações de namoradas.
Também eu tenho este hábito de tentar organizar os meus tops, o que nem sempre é fácil, porque há sempre a tentação de sobrevalorizar o que está mais próximo no tempo. Acho que muitos consideram o último bom filme que viram como sendo o filme da vida, o último bom livro que leram como o livro que mais os marcou e, até mesmo, a última paixão como sendo a mais arrebatadora. Lembro-me, por exemplo, de uma revista especial do jornal “Expresso”, que elegia as figuras mais importantes do século XX, e que incluía maioritariamente personalidades que se tinham destacado apenas nas últimas décadas, incluindo um homem que uns meses antes tinha assassinado os clientes de um restaurante, e do qual, certamente, poucos se lembram hoje.
Consciente da possibilidade de cometer este erro, vou deixar aqui nos próximos tempos, alguns dos meus “top-5”. Irei começar, ainda hoje, pelos meus filmes favoritos. Outros se seguirão, espero receber os vossos comentários e tops alternativos.

Publicado por tyler em julho 10, 2003 11:37 AM
Comentários

Vício de fazer top-5? Sim, obrigado.
Creio que é uma forma de nos contextualizarmos, e de percebermos, através das nossas escolhas de topo, quem somos e o que nos define. Os nossos gostos deixam transparecer experiências pessoais (vamos de encontro a livros, filmes, músicas que de alguma forma reflictam vivências por que passámos, e que trasmitam formas de encarar a vida muito idênticas à nossa ou surpreendentes e diferentes, abrindo horizontes, sendo por vezes a 'resposta' que procurávamos), mas são também um exercício narcisista de estilo - com escolhas estabelecidas e reveladas dizemos ao mundo: 'Eu estou aqui, sinto, intuo e sou estas matérias, gosto disto, não gosto daquilo, concordo com isto e discordo daquilo...'. São uma forma de vaidade e autoconfiança, ensinamento e partilha, troca e aprendizagem, criação, reflexão, visão e provocação: ao soltarmos a nossa opinião, desafiamos quem nos vê, ouve ou lê a concordar, admirar, ser surpreendido ou críticar o que revelamos, e, sejamos honestos com o nosso ego, mais do que desejar atirar uma pedra ao charco e contribuir (ou não) para uma abertura de horizontes, esperamos a resposta e feedback de quem com essas 'provocações' foi confrontado.
Aqui ficam os meus filmes preferidos de sempre, desde há muito escritos em ficheiro:
- 'Wild Orchid' (1990), de Zalman King. Engana-se quem pensava que este é apenas um filme erótico. Num final subtilmente surpreendente, toda a história do filme ganha um sentido: a sexualidade é tremendamente reveladora, manifestando medos, desejos e anseios, podendo ir para além de um escape, tornando-se uma forma de fuga...
- 'Secretary', de Steven Shainberg. O filme 'A Secretária' esteve até há bem pouco tempo em exibição nos cinemas de Lisboa. Os comentários ao filme? Exactamente os mesmos tecidos em relação a 'Wild Orchid'.
- 'Unfaithful', de Andrian Lyne. Não foi por acaso que Diane Lane foi nomeada na categoria de actriz principal nos últimos Óscares pela sua actuação neste filme. Entre a estagnação de um casamento, e o distanciamento causado pela rotina do quotidiano, o filme trata também, sem formalidades e com a crueza e explosão gritante do realismo, o tema da infidelidade.
- ‘Mulholand Drive’, de David Lynch. Tendo sido a ‘caixa de Pandora’ aberta, o horror maior não é todos os males virem ao mundo, antes sim ter que enfrentar o vazio da mesma num buraco negro que nos consome energéticamente. Um filme que deixa a mente instigar durante largos dias...
- ‘The Game’, de David Fincher. Após um fustrante zapping, heis-que dou por mim ‘agarrada’ a t.v. numa tarde de Sábado. A cada imagem, o suar, o temer, enterrando com força as unhas na pele, o coração e mente que palpitam e reclamam, tentado descobrir a trama daquele intrigante enredo. Quando julgava que já tinha percebido tudo, o final deixa-me boquiabertamente knock out. Comentários ao conteúdo para quê?

Lane, 10.07.2003

Afixado por: Sxlane em julho 12, 2003 01:29 PM